American Splendor: Como Era Uma Merda Ser Um Merda Antes Do YouTube

O finado quadrinista Harvey Pekar era um loser. Ponto. Vivendo uma vidinha de merda no cu de Cleveland, EUA em meados dos anos 70 e totalmente consciente disso, Pekar resolveu pegar toda aquela… merda e tentar fazer daquilo algo útil ou positivo que seja. Bem, na falta de possibilidades, acabou por fazer um gibi. Um gibi de si mesmo, da sua rotina entediante e sacal e das pessoas escrotas que conhecia. Coisas do dia-a-dia… que não interessavam à absolutamente ninguém. Hoje em dia, pessoas na sua situação e sem conteúdo algum optam por virarem youtubers fazendo vídeos constrangedores relatando sua vidinha patética e sem graça, dando suas opiniões medíocres e rasteiras a respeito de qualquer assunto idiota e arrumando tretas por motivos tão fúteis e superficiais quanto todos esses merdas são… 

American Splendor (pra você, que é burro, não ficar quebrando a cabeça: “Esplendor Americano”, em português), é um filme meio documentário baseado na série de quadrinhos independente, de mesmo titulo, da autoria de Pekar, em que ele descreve de forma irônica e amarga sua vida de fracassado (e é isso, já que a única coisa que ele sabia escrever era sobre si mesmo), com a ajuda de vários desenhistas, inclusive seu chapa famoso, o polêmico Robert Crumb (autor de Fritz the Cat, Mr. Natural e outras bizarrices) assumindo os desenhos, pois o próprio Pekar, alem de não saber escrever sobre qualquer outro assunto que fosse, mal conseguia rabiscar um desenho minimamente identificável. Basta dizer que os “esboços” de suas historias eram feitos com “hominhos” de pauzinho e bolinha (não vai pensando outra coisa, seu pervertido).

Portanto, a trama (se é que podemos chamar assim) começa mostrando o quão fodido é esse cara, que chega na casa dos 40 levando um pé na bunda da esposa e vai se afogando num mar de comiseração e fatalismo, se tornando cada vez mais uma pessoa azeda e baixo astral – exatamente como acontece com todo mundo na mesma situação.  E se sua vida amorosa não era das melhores (muito antes pelo contrário), seu trabalho e amigos não poderiam ser mais baixo nivel: Pekar era um arquivista frustrado de um hospital em que só tinha gente estranha e esquisita, como Toby, seu amigo nerd (no pior sentido que essa palavra pode aludir), um sujeito tao rasteiro, patético, boçal e tão sem vida própria que teve as manhas de atravessar a porra de um estado inteiro apenas para assistir a estréia de uma merda de um filme no cinema (A Vingança dos Nerds, no caso. Sem mais comentários).

Pois bem, Harvey era um bosta, um loser, um derrotado… mas conhecia Bob Crumb (ainda em inicio de carreira). Aliás, no filme é mostrado que se não fosse um empurrão de Pekar, Crumb estaria até hoje rabiscando suas historias em caderninhos escolares e batendo uma punheta pra si mesmo, coisa muito comum aqui no Brasil entre os “autores” de quadrinhos, com suas míseras publicações via Catarse, com tiragens ridículas e sua panelinha de bajuladores. Não demorou muito depois disso pra que Crumb começasse a fazer algum sucesso no circuito alternativo de quadrinhos americanos (movimento o qual ele ajudou a formar). Então, ao ver o sucesso de seu chegado, Harvey decidiu também fazer suas HQ´s. O tema? A vida fodida de merda de um funcionário público, um arquivista de hospital e seus amigos malucos em Cleveland. Ou seja, nada de interessante, mas mesmo assim fez relativo sucesso nos Estados Unidos, numa época que quadrinhos ainda era uma mídia muito mais popular do que é hoje em dia.

Nisso, ele conhece Joyce Brabner, uma nerd da puta-que-o-pariu que tinha uma loja de gibis e que passou a se corresponder com o autor via cartas e telefonemas (coisas dos anos 70 e 80. Depois, ainda tem corno que sente falta desses tempos). Daí, numa manobra matreira por parte de Pekar, se aproveitando da relação ídolo/fã, a incauta esquisitona sai de sua cidade pra passar um fim de semana com o seu autor (e personagem) favorito. Depois de um primeiro encontro meio bizarro (e totalmente broxante), eles passam a morar juntos. O gibi começa a ficar mais conhecido e é aí que vem as melhores partes do filme, que é quando Harvey passa a ser figurinha constante no programa de David Letterman, que na total falta de interesse e nexo de toda a história, pode muito bem ser considerado o vilão do filme, já que em todas as suas cenas ele e Harvey se antagonizam mutuamente, pois, a única razão que o cara era chamado para aparecer no show era pro apresentador filho da puta tirar um sarro da cara dele. Letterman (que também já apareceu num gibi dos Vingadores), pra quem não sabe talvez seja o maior apresentador de talk show dos Estados Unidos e foi de seu programa que o Jô Soares (e todo o resto) chupinhou descaradamente todos os mínimos detalhes.

Ah sim, como eu tinha dito acima, o filme tem uma pegada meio que de documentário, com as cenas se alternando entre o filme em si e varias tomadas com o próprio Harvey Pekar, em estúdio, no hospital, com seus amigos medonhos, etc. As cenas no programa de Letterman são imagens de arquivo cedidas pela emissora. E é exatamente neste ponto que  surgem as cenas mais reveladoras do filme: os amigos de Pekar. Todas os figuraças que trabalhavam junto com ele no hospital são, sem exceção, completamente malucos. Ou seja, entrar neste hospital de Cleveland era como assinar uma sentença de morte. A verdade é que Pekar, por mais estranho, xarope e escroto que fosse, ainda assim podia ser considerado um sujeito normal (ou algo próximo a isso), considerando o tipo de gente com quem trabalhava e vivia.

Nisso, todo o esforço do ator Paul Giamatti em incorporar Harvey Pekar nas partes encenadas do filme perde pros momentos em que os verdadeiros amigos do quadrinista aparecem em carne e osso.  São aqueles raros casos onde a realidade supera a ficção,  principalmente o já citado Toby, o nerd retardado (pleonasmo), um cara tão bizarro e ofensivo, que foi até motivo de chacota em um programa da MTV gringa. Mas aqueles eram outros tempos, afinal, hoje, esse mesmíssimo tipo de gente, esses desperdícios de vida estão saindo de seus blogs medíocres pra apresentarem programas na mesma MTV. Pois é… esse mundo ta mesmo fodido.

E o filme vai seguindo até a parte final em que trata do episodio de câncer (um nódulo no testículo de Pekar), que também, olha só, vejam vocês, virou gibi (Our Câncer Year). No final, acaba tudo bem, com Harvey se recuperando da doença, com uma filha adotiva (na verdade, uma menina que um de seus desenhistas largou na caradura pro tiozinho e sua mulher criarem), rodeado pelos mesmos babacas e levando a mesma vidinha inócua de sempre. E talvez tenha sido assim até o final, já que Pekar morreu em 2010, com 70 anos.

Enfim, como eu disse antes, o relativo sucesso que o gibi de American Splendor teve se deve muito mesmo à época em que ele saiu. Seja como for, não tem como não dizer que mesmo sendo um gibi inodoro e insípido (e não teria como ser diferente, em se tratando do que ele abordava), ainda assim, em parte, foi inovador, tanto em temática quanto em contexto. Talvez se Harvey Pekar não tivesse inventado  nos anos 70  fazer um gibi falando de coisas comuns, da rotina diária e tediosa do cidadão comum, hoje não teríamos tantas dessas hq´s “realistas” e tão festejadas pela galerinha lacradora e emaconhada da Vila Madalena e afins, principalmente no meio independente como, por exemplo, a pretensiosa e medíocre Retalhos, e outras porcarias cabeçoides e entediantes como Jimmy Corrigan, Daytripper, tudo do Daniel Clowes e a putada da Fantagraphics e outras merdas índies, feitas unicamente por questão de ego em sua maioria e nem um pouco divertidas ou mesmo interessantes – o que parando pra pensar depois de tudo isso, não seria nada ruim, mas enfim…

Quanto ao filme, talvez seu grande problema seja exatamente esse: ele literalmente não vai a lugar algum, se resume apenas a contar uma historia sem nenhum interesse simplesmente por se tratar de um gibi “cultuado”. Apesar de pretender ser um filme sério e crítico, falha em quase todas as tentativas e não diz nada. Quer dizer… se a idéia principal (o gibi) já não era lá aquelas coisas, o desenvolvimento fica muito abaixo das expectativas que o filme gera ainda mais por se tratar de uma hq “alternativa” e tal. Claro que existem bons motivos para você assistir o filme, como as cenas do programa do David Letterman, mas mesmo assim ainda é pouco pra se justificar uma hora e 40 minutos de filme e as forçações e caretas do Paul Giamatti, que parece só saber fazer isso em todos os seus filmes. Se bem, que pelo menos nisso, acharam um cara perfeito: um ator que só sabe interpretar de uma forma no papel de um autor que só sabe escrever e falar de si mesmo.

Mas, enfim, no saldo final, é um filme razoável pra meia-boca e acho que apesar da levada meio modorrenta dá pra assistir numa boa, se você tiver sem ter porra nenhuma pra fazer num dia frio e sem graça.

 

6 comentários Adicione o seu

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  2. Anônimo disse:

    Me falaram tanto de Retalhos e Daytripper, pq não é bom?

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      1. Anônimo disse:

        kkkkkkk é sério, poderia elaborar pelo menos de forma rasa? fiquei interessado de comprar por causa das recomendações mas não quero jogar meu dinheiro no lixo

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      2. Imperador disse:

        Tenho um texto sobre o retalhos que acho que vou soltar em breve, onde discordo sobre a minha aversão a esse tipo de HQ.

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  3. alessandro disse:

    fantagraphics tem love e rockets, que eu gosto (especialmente as histórias de pandonar).

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