CODA, de Ray Bradbury

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Antes de falar de cu e cultura, tenho que falar do bom e velho Ray Bradbury:

Ray era um cara esperto.

Desde guri, sempre quis ser escritor. O negócio dele era a máquina de escrever. Quando novo, desenvolveu uma técnica infalível, que usou durante boa parte de seus 91 anos de fértil vida.

Como resultado, conseguia produzir um conto por semana, 52 por ano. E como ele próprio dizia, é impossível para qualquer imbecil escrever 52 histórias ruins uma depois da outra (embora isso seja altamente debatível). Com isso, ele levou a vida que sonhou, durante quase um século. O cara tem um prêmio em seu nome.

Ele não era só um escritor, era também um artista. A diferença entre ambos, está implicita no CODA, a seguir. Alguns dos melhores livros de ficção científica são fruto de seu trabalho, como O homem ilustrado (ou Uma Sombra Passou por aqui), o fenomenal Crônicas Marcianas, e o livro que levou a este texto, Fahrenheit 451.

O livro, curto, conciso, relevante, retrata um futuro próximo na visão de Guy Montag, um bombeiro. Mas nesse futuro, o trabalho dos bombeiros é apagar a chama da revolução, queimando livros com lança-chamas. No lugar de livros, a TV ocupa a maior parte do tempo dos cidadãos, e definem seu caráter. Uma versão mais subjetiva, mas mais profunda, do grande irmão.

O texto abaixo é o CODA de Fahrenheit 451, ou a conclusão do livro, embora não faça parte da história propriamente dita. É um relato de como a ficção costuma refletir a realidade, as vezes da pior e mais inacreditável maneira.

Tenha em mente que Bradbury era, como a maioria dos autores de ficção científica, um cara livre de qualquer preconceito quanto a origem, raça, opção sexual, e o diabo. Algumas de suas melhores obras são críticas a problemas contemporâneos ao livro (e válidas até hoje), como no fantástico conto “Way in the Middle of the Air” de Crônicas, que, inclusive, é uma das histórias citadas no CODA.

“Há dois anos, recebi uma carta de uma digna jovem da universidade de Vassar (https://pt.wikipedia.org/wiki/Vassar_College) dizendo-me o quanto ela gostou de ler meu experimento em mitologia especial, “As Crônicas Marcianas”. Mas, dizia ela, não seria uma boa idéia, nos tempos atuais, reescrever o livro introduzindo mais personagens e papeis femininos?

Alguns anos antes disso, recebi certa quantidade de cartas sobre o mesmo livro, reclamando que os negros do livro eram “Pais Tomás”, e perguntando por que eu não os “criava de novo”?

Mais ou menos na mesma época, chegava um bilhete de um branco sulista, sugerindo que eu favorecia os negros e que a historia deveria ser toda descartada.

Duas semanas atrás, minha montanha de cartas trazia uma, insignificante, de uma famosa editora, que desejava reeditar meu conto “A Sirene no Nevoeiro” (http://www.recantodasletras.com.br/contosdeficcaocientifica/4332607) em um livro de leitura para o colegial.
Em meu conto, descrevi um farol que, tarde da noite, iluminava como um “Deus de Luz”. Olhando para ele do ponto de vista de uma criatura marinha, tinha-se a impressão de se estar diante “da Presença”.

Os editores haviam eliminado “Deus de Luz” e diante “da Presença”.

A uns cinco anos, os editores de uma outra antologia de leitura escolar reuniram um volume com cerca de quatrocentos contos (eu contei). Como você espreme quatrocentos contos de Twain, Irving, Poe, Maupassant e Bierce em apenas um livro?

Simplicidade pura. Esfole, desosse, tire a medula, escarifique, derreta, encurte e destrua. Todo adjetivo que valesse algo, todo verbo que movia, toda metáfora que pesasse mais que um mosquito – fora! Todo símile que poderia fazer a boca de um idiota se contorcer – desaparecido! Quaisquer paralelo que explicasse a filosofia simples de um escritor de primeiro nível – perdido! Cada conto, emagrecido, famelizado, dissecado, sugado e tornado anêmico, se assemelhava com qualquer outro. Twain soava como Poe, que soava como Shakespeare, que soava como Dostoievski, que soava como – no final – Edgar Guest. Toda palavra com mais de três sílabas havia sido aparada. Toda imagem que exigisse um instante de atenção – assassinada.

Começou a sacar a maldita, inacreditável situação?
Como reagi a tudo isso?

“Queimando” o pacote inteiro.

Enviando notas de rejeição a cada um deles.

Despachando o bando de idiotas para os quintos dos infernos.

O motivo e óbvio. Há mais de um jeito de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas por aí com caixa de fósforos. Cada minoria, seja batista, unitária, irlandesa, italiana, octagenária, zen-Budista, sionista, adventista do sétimo dia, feminista, republicana, homossexual, quadrangulares, acham que tem o poder, o dever, de dosar o querosene e acender o pavio. Cada editor estúpido que se vê como fonte de toda literatura pavorosa, insossa, empapada, ázima (sem fermento ou levedura, Contra também é cultura culinária), lustra sua guilhotina e mira a nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro ou escrever mais que uma rima de jardim-de-infância.

Beatty, o capitão dos bombeiros em meu romance Fahrenheit 451, explicou como os livros foram queimados, primeiro, pelas minorias, cada um rasgando uma pagina ou parágrafo desse livro e depois daquele, até que chegou o dia em que os livros estavam vazios e as mentes caladas e as bibliotecas para sempre fechadas.

“Feche a porta e eles passarão pela janela, feche a janela e eles passarão pela porta” diz a letra de uma antiga canção. Ela explica bem meu estilo de vida com meus censores/açougueiros, renovados a cada mês. Seis semanas atrás descobri que, ao longo dos anos, alguns editores de cubículos da Ballantine Books, receosos de contaminar os jovens, haviam pouco a pouco censurado cerca de 75 trechos do romance. Estudantes, ao lerem esse romance que, afinal de contas, trata de censura e queima de livros no futuro, escreveram-me para contar sobre essa primorosa ironia. Judy Lyn Del Rey, uma das novas editoras da Ballantine, esta refazendo o livro inteiro, que será republicado neste verão com todas as “drogas” e todos os “diabos” de volta.

Um teste final para o velho Jó II aqui: enviei uma peça, “Leviathan 99”, para o teatro de uma universidade a um mês. Minha peça se baseia no mito de “Moby Dick”, é dedicada a Melville, e trata da tripulação de um foguete e de um capitão espacial cego, que se aventuram a encontrar o Grande Cometa Branco, e destruir o destruidor. O drama estreará como uma ópera em Paris, na temporada de outono. Mas, por agora, a universidade escreveu respondendo que dificilmente ousaria encenar minha peça – não havia nenhuma mulher nela! E as senhoras da ERA (Equal Rights Amendment – emenda da igualdade de direitos) iriam atacar com tacos de beisebol se o departamento de teatro sequer tentasse!
Rangendo meus dentes até moêlos inteiros, sugeri que isso significaria, portanto, não encenar nunca mais “Os Rapazes da Banda” (nenhuma mulher) ou “The Woman” (nenhum homem). Ou, fazendo a chamada de homens e mulheres, uma boa parte de Shakespeare jamais seria vista novamente, particularmente se contarmos as falas e descobrirmos que todas as boas ficam para os homens!

Escrevi de volta que talvez devessem encenar minha peça numa semana e “The Women” na seguinte. Provavelmente acharam que eu estivesse brincando, e não estou bem certo de que não estava.

Pois este é um mundo louco, e ficará mais louco se permitirmos que minorias, sejam elas anões ou gigantes, orangotangos ou golfinhos, adeptos de ogivas nucleares ou de conversações aquáticas, pre-computarologistas ou neo-luddistas, simplórios ou sábios, interfiram na Estética. O mundo real é o playground em que todo e qualquer grupo formula ou revoga leis. Mas a face dos meus livros ou dos meus contos ou poemas é onde seus direitos terminam e meus imperativos territoriais começam, correm e comandam. Se os mórmons não gostam das minhas pecas, que escrevam as deles. Se os irlandeses detestam meus contos em Dublin, que aluguem máquinas de escrever. Se os professores e os editores das escolas elementares acharem que minhas frases quebra-queixos partirão seus dentes-de-leite, eles que comam bolo rançoso embebido em chá diluído da sua própria maldita produção. Se os intelectuais chicanos desejarem recosturar meu “Wonderful Ice Cream Suit” (https://en.wikipedia.org/wiki/The_Wonderful_Ice_Cream_Suit) para que tenha o corte de um terno Zoot, que o cinto se solte e as calças caiam.

Encaremos, então, a digressão na sacada da engenhosidade. Tirem-se os apartes filosóficos de Dante, Milton ou do fantasma do pai de Hamlet e o que fica são ossos secos. Laurence Sterne disse certa vez: “Digressões, incontestavelmente, são o brilho do sol, a vida, a alma da leitura! Elimine-as e um inverno eterno reinará em cada página. Restabeleça-as ao escritor – ele avança como um noivo, saúda a todas, introduz a diversidade e proíbe que o apetite fracasse.”

Em suma, não me insultem com as decapitações, os decepamentos ou sufocamentos que pretendam fazem em minhas obras. Preciso de minha cabeça para rejeitar ou assentir, minha mão para saudar ou fechar em punho, meus pulmões para gritar ou sussurrar. Não irei gentilmente para uma prateleira, eviscerado, para me tornar um não-livro.

Todos vocês, juízes, voltem para as arquibancadas. Árbitros, para os chuveiros. É o meu jogo. Eu arremesso, eu rebato, eu apanho. Eu corro as bases. No poente, eu ganho ou eu perco. No nascente, jogo de novo, tento de novo.

E ninguém pode me ajudar. Nem mesmo vocês.”

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E é assim que estamos enfiando a cultura no cu. Temos muito problemas a resolver, e as minorias sofrem de forma contínua pelo preconceito inato de muitas pessoas. E ao contrário do que muito se diz, Arte e Cultura são muito importantes, mas como entretenimento, e não como formador do indivíduo. Quando uma peça tem um monte de atores de 4 enfiando o dedo no rabo um do outro, aquilo é arte. Mas não significa que seja arte pra qualquer um, e principalmente, que qualquer diabo tem que se meter de censurar aquilo.

A sociedade funciona em esferas sociais, nichos, grupos de interesse. Quando você faz algo, a idéia comercial é atender o maior número de pessoas, a maior e mais variada quantidade de nichos. E alguns desses nichos, se anulam.

Quadrinhos de super heróis em geral, sempre teve público alvo claro: adolescentes masculinos. Isso não impede uma mulher de 45 de curtir um gibi do Batman, por exemplo. E existem revistas para mulheres também, que muitas vezes também são lidas por homens. Mas algo, muito provavelmente os filmes, tem levado um público novo para os quadrinhos, um que não compra, não lê, mas opina pra caralho sobre algo que eles não consomem.

Quando uma capa variante desenhada pelo J. Scott Campbell, um cara com uns 30 anos de carreira, é limada porque alguma feminista pentelhuda achou que o desenho da menina de 15 anos estava demais sexualizado, isso é queimar um livro.
Quando o cabaço do Rucka (um maldito excelente escritor, mas um péssimo ser humano) diz que o Cho não pode desenhar meia bunda da Mulher Maravilha, mas o filhodaputa coloca ela nua dentro da revista, isso é queimar um artista.

Uma obra de arte, pra ser relevante, não pode ser empapada. Muitas vezes, ela tem que ser cruel, apaixonante, sensual, sexual, odiosa. O que a Barbara Gordon sofre, junto com seu pai, na Piada Mortal, não é “torture porn”. É um momento pesado, cruel, crú. Ele transmite emoção, e leva a história a um patamar que poucas obras conseguem. O leitor cria rapport com os personagens. Ele vai lembrar daquela história. Isso não é obrigatório numa revista ou num livro, mas é o que todo artista almeja.

Então, quando uma desgraça vê sexualidade no traço que o desgraçado do Campbell usa, não é tara dos outros, é a própria perversidade dela disfarçada de opinião. Quando algum animal diz que história como Piada Mortal devem ser relegadas ao esquecimento, ele está no seu direito. Todo mundo tem direito a falar merda, mesmo que isso demonstre que ele é um humano subdesenvolvido, que não criou maturidade para qualquer coisa que não seja papinha de nenê.

Para as pessoas com o dinheiro por trás das obras, é preciso perceber que essa pessoa está cagando pela boca. Sua personalidade não tem dentes. Sua alma não tem cor. Resumindo, o cara é um merda. Mas não é isso que está acontecendo. Às vezes regredindo, muitas vezes avançando, o que vemos são produtores dando vazão pra todo esse lixo. A Marvel tem feito histórias pra agradar todo mundo, e todo mundo sabe que isso nunca dá certo. A DC conseguiu fazer o Cho pedir arrego, um dos artistas mais sossegados (e talentosos) dos quadrinhos modernos. Quando uma frente feminista falou que Milo Manara não era um cara talentoso, eles deram corda!

Uma obra pode ser pesada. Em alguns casos, deve. Não existe cota para uma obra, um personagem gay pode ser um péssimo ser humano (afinal, um gay é um humano como qualquer outro). Se uma história não tiver personagens mulheres, ou homens, ou negros, isso não significa que um negro ou um homem ou uma mulher não possa ler e aproveitar o trabalho. Basta ter o gosto voltado para aquilo. E um índio, um negro ou um branco pode ser burro, porque por mais triste que seja, essa é a verdade para muitos deles. Retratar alguém assim não significa ser conivente com aquilo. Pelo contrário, significa retratar a parte suja da vida, da qual tentamos todos fugir, mas nunca conseguimos.

Imagine, então, que você está num restaurante, com um excelente chef. Todos estão esperando o melhor prato dele.
De repente, entra uma pessoa, vinda de lugar nenhum, e entra na cozinha. Ao chef, ele diz que o prato dele não está bom, falta um ingrediente crucial: Bosta. O chef acha um absurdo, mas o dono do restaurante escuta a conversa e manda o chef colocar um toletão de Bosta em cada um dos pratos. O cara vai embora e não come nada. Todo mundo come o prato de bosta, não pode mais apreciar o talento do cozinheiro.

Essa é a situação atual. Hoje em dia, todo mundo é Fredric Wertham, socando o selo do Comic Code em tudo que é revista, livro, filme, ou comentário de internet. Selo este, que o Stan Lee fez o máximo para exterminar. Sabe, aquele velho que você acha o máximo, mas nunca leu uma porra duma história? Você tá cagando em cima da obra da vida dele, e de qualquer artista que tenha algo de relevante para contar. Seu BOSTA.

Ao contrário, temos uma massa anticultural de pequenos Adolf Hitlers, pronto pra tacar fogo no mundo. E deixar tudo cinza, até a alma.

Autor: Astrólogo Orvalho de Caralho

Também conhecido como Sr. Caralho. Só Caralho entre amigos.

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