Entrevista do CONTRA: Eduardo Schloesser

(*) Com colaboração de Adriano Imperador

O desenhista Eduardo Schloesser  é uma das maiores referências no Brasil quando se trata de desenho anatômico. Suas maiores influências são os mitos Bernie Wrightson e Richard Corben, cada qual, um mestre no seu estilo de desenho. Em 97, Schloesser produziu o álbum Zé Gatão – uma graphic novel independente com personagem de sua autoria, que anos depois foi relançado pela editora Via Lettera com melhor acabamento gráfico. Eduardo segue colaborando com outras editoras, como a Escala, emprestando seu traço realista a vários tipos de publicações, principalmente revistas com dicas para desenhistas evoluírem seus traços. Ele também é um cara de opiniões  particulares bem fortes e sem rabo preso, assim como a gente, o que pode ser visto na entrevista abaixo, a qual ele cordialmente nos concedeu:

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1 – Vamos começar falando um pouco de você. Esse nome Schloesser é bem diferente, é de qual ascendência? E como se pronuncia ?

ES: Schloesser é o nome do meu avô, é de origem germânica mas ele era francês, de Estrasburgo. Pronuncia-se mais ou menos assim: “Xilosser” mas já ouvi alemães pronunciando “Xilessar”. A maioria das pessoas não acertam.

2 – Ouvimos dizer que és um cara reservado, é verdade?

ES: Sim. Sempre fui reservado, é mais forte que eu; não me sinto a vontade em grupos ou comunidades, sempre tive esta inclinação ao isolamento, pode até não parecer mas a minha timidez é patológica. Na escola, quando eu era guri isto era um inferno, melhorei com o passar dos anos, mas confesso que se pudesse eu seria invisível.

3 – Além dos desenhos, tem algum hobby?

ES: Ler, ouvir música e ver filmes são meus únicos prazeres pessoais.

4 – Conte-nos um pouco sobre sua história de vida e sua trajetória até o mundo da arte e dos quadrinhos. O que te levou a isso?

ES: Por causa da minha inadaptabilidade eu nunca me senti inclinado a nada, não sabia para o que eu tinha vocação nem o que ia fazer da vida. Sempre fui um sujeito muito complexado e recalcado, tinha inveja dos caras durões e populares da escola, aqueles que viviam cheios de amigos e assediado pelas garotas; eu não era bonito, não era alto e nem me julgava inteligente. Como gostava de desenhar eu fiz uso disso para me comunicar com o mundo, pensei: preciso compensar todas as minhas deficiências com a arte, ou seja, se meu aspecto físico é desprezível, eu preciso ser o melhor no desenho. Sei que estou muito longe de ser o melhor, mas avancei bastante e acabei encontrando a minha forma de sobreviver trabalhando com a única coisa que sei fazer.

5 – Você tem alguma formação técnica ou superior, ou é um autodidata?

ES – Sou autodidata no desenho e na pintura. Tive instruções com um acadêmico no Rio de Janeiro no início dos anos 80, mas com ele eu julgo que desenvolvi mais a paciência e como manipular alguns materiais do que qualquer outra coisa. As noções de perspectiva, luz e sombra, anatomia e uso das cores eu tive que aprender sozinho, observando meus ídolos das HQs. Também fiz faculdade de artes mas relembrando hoje não teve nada ali que tivesse me acrescentado.

6 – Essa pergunta é de praxe, mas diga-nos, quais são suas maiores fontes de inspiração e suas maiores influências? No cinema e na literatura tem algo que o influenciou?

ES – Minha maior fonte de inspiração são os eventos do cotidiano, por mais incrível que possa parecer. As pessoas que leem minhas histórias carregadas dos elementos de ação e fantasia nem imaginam que elas tiveram sua origem em fatos prosaicos que aconteceram comigo ou de uma conversa que escutei numa fila de supermercado. É lógico que tudo isto fica subliminarmente embutido na narrativa, mas a ideia básica é sempre oriunda de algo trivial do dia a dia. Minhas influências são notórias: Richard Corben com seus mundos fantásticos, Tanino Liberatore com sua cenas de sexo e violência e Bernie Wrightson com seu traço macabro carregado de expressividade. Mas quem me fez ter vontade de criar quadrinhos foi o Will Eisner desde que li uma história do Spirit. No cinema e literatura sou sempre influenciado, os mundos distópicos meio cyberpunk de Mad Max são um exemplo (eu poderia citar também Laranja Mecânica e Clube da Luta para complementar) Ouso e arrisco dizer que minhas narrativas tem alguma influição de Kafka e Bukowski.

7 – Acredito que o Zé Gatão atualmente seja seu personagem mais conhecido, fale mais sobre ele, tem algo de autobiográfico no Zé gatão?

ES – O que posso falar sobre Zé Gatão que ainda não tenha dito? Um universo antropozoomorfo muito semelhante à nossa realidade que tentei dar coesão e factibilidade? Penso que já disse isto. Não acho fácil trabalhar com animais humanizados, não fui pelo caminho mais fácil, incomoda muita gente. O filme Zootopia foi o mais próximo que chegaram do que eu tinha em mente quando criei o Zé Gatão, mas ainda é muito fofinho. Quando concebi o personagem título eu almejava algo que se destacasse do que era normalmente feito no Brasil; fortemente influenciado por publicações como a El Víbora eu pisei fundo no acelerador sem medir consequências, até hoje não sei mensurar o público e sua aceitação. Existem pessoas que amam e outras que criticam até o nome do protagonista, achando que não é vendável. Tivemos até agora cinco álbuns, dois independentes e três publicados por editoras de renome, mas esses últimos só vieram a público por muita garra e insistência dos editores. Mas eu tenho fé que a semente lançada em 1997 ainda renderá bons frutos. Se tem algo de autobiográfico em Zé Gatão? Sim, totalmente.

8 – Conte-nos sobre como está atualmente, você vive do seu trabalho artístico, ou tem outra forte de renda?

ES – Sobrevivo única e exclusivamente da arte. Insisto em dizer que sou bem aventurado neste sentido, Deus me abençoa, tenho ilustrado livros e manuais de desenho a muitos anos e embora não paguem tão bem, sempre tenho tido trabalhos. Realizo também vez por outra algumas comissions para complementar minha renda. Na boa, eu não tenho aptidão para outra coisa que não seja pegar no lápis e riscar no papel.

9 – Como está o mercado atualmente, é difícil viver de arte no Brasil?

ES – Muito difícil! Não acho que exista um mercado, nem para ilustração comercial muito menos para os quadrinhos no Brasil. Para ilustrar deixe-me contar uma história, no início dos anos 90 em São Paulo, garimpando pequenas editoras atrás de encomendas eu meti na cabeça que queria trabalhar como ilustrador de capas de livros como o Frank Frazetta, acreditando que teria oferta e procura. Montei um portfólio com muitas pinturas a óleo de diversos gêneros, inclusive super-heróis (eu tinha em mente trabalhar na Editora Abril). Foi inacreditável o número de portas que bati sem sucesso. Descobri que não havia nem oferta e nem procura para este tipo de material. O saudoso Pierluigi Piazzi, professor do meu irmão e fundador da Editora Aleph, gostava dos meus quadros e pretendeu me encomendar algumas capas para os livros de ficção científica que ele editava, mas os planos nunca se concretizaram. Foi através das indicações de alguns amigos que cheguei a pintar algumas capas para revistas de Games e criar aquarelas para revistas poster de astros do rock para algumas publicadoras menores, mas ali eu já notava como a coisa era difícil, para não dizer inexistente. Definitivamente não temos esta cultura. Se de lá para cá a coisa avançou, não posso afirmar com certeza, sei que muitos artistas produzem artes para livros de RPG, mas consolidou-se um mercado profícuo? Respondam-me os que sabem. Nos quadrinhos a mesma coisa, pela bravura e talento de alguns artistas temos bons materiais na praça, mas somente por amor à coisa e muita insistência. E atenção, por mercado, eu entendo o profissional que ganha bem para produzir o seu melhor.

10 – A gente sabe que alguns dos seus trampos tem uma pegada bem underground. Temos a impressão de que o brasileiro é mais fechado pra esse tipo de arte, e que nos EUA e mesmo Europa encontra-se um público mais receptivo nesse sentido, você acha que isso corresponde a realidade?

ES – Sim, totalmente. Faz uns anos já, um conhecido insistiu para que eu tentasse ingressar no mercado gringo fazendo super-heróis, cheguei a fazer uns testes e as respostas educadas dos agenciadores era de que meu traço era legal mas muito estilizado para as editoras americanas. Note bem, não foram os ianques que falaram isto, foram os brasileiros. Mas eles tem mesmo razão, meu tipo de traço não se adéqua aos padrões do maisntream e eu prefiro trabalhar minhas narrativas do meu jeito.

11 – Nós estamos vivendo uma situação muito delicada atualmente em relação ao politicamente correto e as imposições ideológicas. Mesmo a cultura pop tem sido bem influenciada por décadas de doutrinação, o que vem gerando resultados desastrosos para a arte e esterilizando muitos artistas. Diga-nos, você já foi censurado? Isso te prejudicou muito ou ainda te prejudica? O que você acha dessa situação toda, acha que podemos resistir? Existe um amanhã para os artistas que querem se expressar de forma livre? Você tem algum interesse por política? Como vê o cenário atual? E como vê o Brasil dos dias de hoje?

ES – Sim, procuro acompanhar com cuidado tudo o que está acontecendo. O que vejo do cenário atual me dá azia, principalmente no mundo da arte. Acho o politicamente correto um câncer, haja visto que ninguém hoje em dia pode ter um livre pensamento sem ser cerceado por alguma corrente ideológica. Antigamente as piadas e paródias eram feitas e dificilmente alguém se sentia ofendido com isto, mas penso que o artista tem que usar o bom senso. Sou radicalmente contra a censura e todo o tipo de violência (brutalidade, só no cinema e nos quadrinhos). Sim, eu já tive cenas de Zé Gatão censuradas, mas não me senti prejudicado, pra falar a verdade. As feministas pegaram no pé do Milo Manara e do Frank Cho, como já pegaram no pé do Crumb, acho um absurdo! Veja bem, eu não curto o tipo de humor do Pânico, nem do Charlie Hebdo, acho de mau gosto, o que faço então? Eu passo longe, censurar não é o caminho. Sou cristão e consequentemente de direita, gosto da ideia do livre mercado sem a interferência do estado na minha vida. O comunismo não deu certo em nenhum lugar do mundo (e nem poderia) e olhando por essa via, já não estou seguro de que o Brasil tenha remédio. Num passado próximo eu tinha esperanças de que avançaríamos rumo a um futuro, mas me decepcionei, remamos e remamos mas nosso barco não sai do lugar. Continuamos presos ao passado, escolhendo sempre os piores como aliados, usamos sempre dois pesos e duas medidas, queremos caçar um deputado porque ele disse uma besteira no calor de uma discussão e não ligamos a mínima quando uma professora defeca na foto deste mesmo parlamentar em plena via pública. Tudo é muito nojento! Entram e saem os Collors, FHCs, Lulas e Dilmas e continuamos enaltecendo os canalhas, temos pena de bandidos e condenamos os policiais, somo cheios de empáfia e as crianças e os jovens continuam se degradando. Odiamos a Deus e louvamos o diabo. Nesta maré insana já nem sei mais o que dizer. Tenho esperança de viver para vislumbrar mudanças, mas ela vai morrendo um pouco a cada dia ao observar a classe artística hipócrita vomitando suas opiniões políticas rasteiras e arrebanhando uma torrente de idiotas úteis.

12 – O que você recomenda em matéria de arte e quadrinhos, tem algo bom surgindo ou há algum clássico ou artista pouco conhecido que você gostaria de divulgar?

ES – Sempre tem algo bom surgindo e eu infelizmente não consigo ficar antenado a tudo, meu problema de hoje é o mesmo de ontem: pouca grana. Não dá para consumir tudo o que eu gostaria. Eu sempre fico com os clássicos, recomendo todo o material que já foi publicado pela Heavy Metal, as histórias de horror da EC e da Warren, além, é claro, do Lobo Solitário, Ken Parker e tudo produzido por Will Eisner e Alex Raymond. No Brasil, eu não consigo entender como os nomes do Allan Alex, Nestablo Ramos e Alex Genaro ainda não fazem parte do panteão de grandes astros da HQ nacional.

13 – Pra finalizar, o que você mais recomenda entre seus trabalhos para quem não conhece adentrar no mundo Schloesser? Diga-nos onde podem encontrar a venda seus quadrinhos. Divulgue seu trampo e deixe seus contatos pra galera.

ES – Infelizmente minha produção é pequena, apesar de estar na estrada a mais de 30 anos, fiz quadrinhos eróticos no final dos anos 90, mas com certeza é material raríssimo, produzi alguns livros ensinando desenho e uns bons de anatomia, todos publicados pela Editora Criativo e tem os cinco álbuns do Zé Gatão, dois deles esgotados, os que foram publicados pela Devir podem ser achados nas grandes livrarias e também na editora. Mantenho um blog que atualizo semanalmente,http://eduardoschloesser.blogspot.com.br/
e tenho páginas no Facebook, Pinterest e no Google +. Creio que isto é tudo.

Nós do Contra só temos a agradecer ao Eduardo pelo tempo desprendido por esse grande artista ao nos conceder essa sensacional entrevista. Esperamos que vocês, amigos Contronautas tenham curtido. Se sim, deixem um comentário, e sugiram outras pessoas para trocar uma ideia com a gente. E também, curtam e compartilhem nossas postagens nas redes sociais.

 

 

2 comentários

  1. Grande Eduardo. É um dos artistas que mais respeito e por nutro uma profunda admiração pela sua tenacidade e caráter. Eu o conheci aqui em Recife durante o lançamento de um de seus álbuns e devo dizer que sua palestra foi edificante de várias maneiras. Uma delas, foi o modo como sua história me abriu horizontes que ainda se tornariam mais e mais extensos com o passar dos anos.

    Se hoje tenho uma certa postura com relação ao mundo das artes e da sócio/política, eu devo uma parte a ele. Nos vimos novamente em um encontro artístico há um ano em Olinda e tive a oportunidade de aprofundar um pouco mais nestes temas tão espinhosos. Pena que nossos colegas de lápis não se sentiram muito confortáveis no momento.

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