Tempos de merda fazem pessoas de merda – e vice-versa

 

Você não acha estranho que as pessoas tenham ficado tão erradas de repente?

Não é estranho que aquele seu amigo de anos, do dia pra noite tenha se tornado um “machista-misógino-racista-homofóbico-reaça-retrógrado”?

E como é que você não viu isso antes? Simples: Ele NÃO se tornou essas coisas. E não, antes que você pense, num espasmo de pretensa epifania “é claro: ele sempre foi!” eu preciso te dizer: não, ele, provavelmente NUNCA foi. VOCÊ é que mudou sua PERSPECTIVA. Seu amigo não se tornou uma pessoa pior. VOCÊ se tornou. Você passou a julgar com mais frequência. Você se tornou radical. Sim. Foi isso que aconteceu. Mas, por quê?

Primeiro vamos entender alguns desses conceitos que eu citei e vou explicá-los com uma história. Certa vez, eu mostrei a uma ex-grande amiga, uma matéria que PROVAVA que os números apresentados por uma certa manifestação em prol de uma certa minoria estavam mascarados para mais. A matéria apresentava as evidências com base em ciências estatísticas e na FÍSICA. Foi o bastante para ela me taxar de “preconceituoso”, “conservador” (como se isso fosse uma ofensa) e a mais engraçada de todas: “homofóbico”! Vejam, bastou apenas que eu comunicasse um FATO para acender o estopim da inimizade que ela futuramente nutriria por mim e que se configuraria em definitivo a partir de um tweet onde eu criticaria o Pedro Bial (!!!) Sim, cara, estamos ficando malucos a esse ponto.

E por que, diabos, isso acontece? Porque as réguas com que estamos medindo as pessoas (homofobia, racismo, machismo, conservadorismo) são palavras que se esvaziaram completamente de seus significados. São palavras que podem representar QUALQUER COISA. Fazer uma piada com um homossexual é considerado homofobia, mas MATAR o mesmo homossexual TAMBÉM é. Ora, isso é completamente absurdo. Temos um monte de palavras em português para classificar o primeiro caso de forma mais genérica (zombaria, escárnio, deboche, até “ofensa”) e essas palavras tem um peso completamente diferente das usadas para descrever genericamente o segundo caso: (homicídio, assassinato, assassínio). E é esse o início da confusão.

As palavras são a representação abstrata de coisas concretas. Se eu digo “cachorro”, minha mente evoca a imagem de um animal. São convenções linguísticas aceitas e bem resolvidas. Mas o que acontece se eu introduzo novas palavras, ou palavras menos conhecidas no vocabulário comum? O uso frequente vai consolidar na mente das pessoas, o seu significado. Embora tenhamos conceitos bem estabelecidos para palavras de significado único, também estamos acostumados a palavras homônimas: “Cão” é uma delas. Determina o animal e a peça do revolver que aciona o gatilho. O contexto vai determinar o sentido.

Nesse ponto, entra em cena a engenharia social por trás da popularização de certos termos. Os sociólogos, jornalistas, escritores, profissionais de mídia em geral, engajados em emplacar uma ideia, vão achar uma nova palavra ou eleger uma já existente e FLEXIBILIZAR ou EXPANDIR o seu significado ou, o contrário: vão RESTRINGIR até que a palavra se esvazie e cumpra unicamente a intenção de quem iniciou o processo. Essas coisas são difundidas, repetidas ao extremo até que se tornem a nova régua moral da sociedade. E o resultado disso é a divisão.

A divisão quase sempre acontece quando alguém se acha melhor que alguém. É quando você não “se mistura” ou para de se misturar. É quando você não quer “queimar o seu filme”. Esse sentimento não é só motivado por vaidade ou por orgulho. Ele às vezes tem até uma nobre motivação: a busca da virtude. Eu me separo de fulano porque ele é mau e eu quero ser bom. Mas isso nos remete ao início do texto: fulano não se tornou mau. Eu MUDEI os meus critérios de julgamento. Mudei a régua. Aliás, alguém mudou a régua por mim. Já sabemos como isto foi feito. Agora precisamos saber porquê.

A quem interessa a divisão? A quem tem menos, óbvio. Isso é válido para coisas concretas como dinheiro, terras, bens materiais em geral e para coisas abstratas, como sentimentos ( filhos que desejam que seus pais trabalhem menos e lhes deem mais atenção, por exemplo). Dificilmente, alguém que tem a parte maior vai propor uma divisão. Mas, uma vez dividido, essa pessoa que ficou com a maior parte vai precisar fazer a manutenção da divisão. E para isso, essa dissensão motivada pela palavra vai ganhar cada vez mais ênfase. Estudos pseudo-científicos, congressos, livros, programas de televisão, campanhas estatais. Celebridades e “autoridades” vão discorrer sobre o assunto. O jargão se torna um bordão que se torna um slogan. O slogan move as massas e as massas tomam PARTIDO. Aqui está a resposta: PARTIDO = que se partiu; quebrado, fragmentado. DIVIDIDO em partes.

É uma questão política e NUNCA é uma questão verdadeiramente social ou humanitária. Não há um interesse real em defender NENHUMA minoria. Há o interesse MOMENTÂNEO na manutenção da divisão. E é momentâneo porque o caráter da divisão não é um fim em si mesmo. O propósito é chegar ao TODO. É dividir para conquistar. É ENFRAQUECER para dominar.

Sim, você está mais fraco. Você está mais isolado e mais solitário, porque você está abandonando a sua “matilha”. Você está taxando os seus amigos de retrógrados e preconceituosos e se juntando ao clubinho da palavra virtuosa. Gente que, quase sempre, você mal conhece. Você está esquecendo todas as coisas CONCRETAS que essas pessoas que você agora despreza já fizeram por você, para se basear em um monte de PALAVRAS sem nenhum significado, que são meramente CARICATURAS e a expressão de preconceitos. A mesma categoria de coisas que você diz ter tanta repulsa. É esse tipo de gente que você está se tornando.

Você está mais fraco porque está BLOQUEANDO as pessoas, novos amigos, está impedindo que gente muito boa se aproxime de você. Você está colocando um muro ideológico em volta da sua vida e se fechando para todas as novas possibilidades, simplesmente porque elegeu meia dúzia de bordões como o seu código moral inegociável e agora não consegue mais pensar fora desta loucura. Você esqueceu que palavras são palavras e AÇÕES são ações e que no fim do dia o que você falou conta muito menos do que o que você FEZ.

Mas se você acha que isso está muito bom, continue. Vai em frente e continue a descartar pessoas em nome de idéias, distorções, slogans. Vire as costas para a pessoa que daria a cara a tapa por você. Abra a mão de quem te doaria um rim, só porque algum ladrão vestindo um terno caro comprado com o dinheiro dos seus impostos ou um sociólogo “formado” por “professores” menos preparados intelectualmente do que ele, disse que os seus amigos não servem mais pra você.

Vai mesmo, otário.

Um comentário em “Tempos de merda fazem pessoas de merda – e vice-versa”

  1. Finalmente eu achei um blog que seja que nem eu, CONTRA todas essas palhaçadas que acontecem no mundo. Já cliquei na estrelinha do Chrome para deixar como favorito.

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